Uma da tarde. Calor infernal. Mas só lá fora. O ar condicionado do carro molesta e expulsa o bafo quente. Estou levando meu cachorro, Ringo, ao veterinário. Ele segue solto no banco traseiro, comportado. No caminho, resolvo fazer o que nunca tinha feito antes: testar o gosto musical dele.
Ligo o som. Vejamos o que temos. Mika, Massacration, Primal Scream e a trilha do Se Beber, Não Case. Começo com Mika, We are Golden.
Ringo parece indiferente, mas está ligeiramente agitado. O som está direcionado para as caixas no fundo do carro. Na hora do coro “we are golden! we are golden!”, Ringo olha meio assustado para trás. Acho que ele não gostou muito. Depois rola Rain, outra do Mika. Ringo fica de boa.
Em seguida, coloco Massacration, música de mesmo nome do segundo CD e aumento o volume. Ele solta um ganido. Alguém aí deve estar pensando: “que mentira! ele não ganiu na hora da música do Massacration!”. Pois ganiu sim. Muitas vezes, a realidade pode parecer absurda. Um exemplo: helicóptero da polícia que foi derrubado pelos traficantes. Não é absurdo? Se você não acha, é um apático conformado com violência.
Bom, voltando ao gosto musical do meu cachorro, o fato dele não gostar de Massacration revela duas coisas: 1) ele não tem muito senso de humor. 2) ele aprecia música de verdade.
Isso foi na ida. No veterinário, tomamos um chá de cadeira. Mais do que eu, meu cachorro odeia esperar. Como uma pessoa humilhada na fila do SUS, ele surta. Late para a atendente do balcão e para todos à sua volta. Ele não quer esperar. Quer respeito. Quer ser bem tratado e atendido rápido. Rápido!
Meu cachorro tem um ano. Dizem que os primeiros doze meses de um cão equivalem mais ou menos a quinze anos “humanos”. Ringo esperou uma hora humana para ser atendido. Convertendo isso em horas caninas, é como se ele tivesse aguardado 15 horas. É para surtar mesmo.
Na volta, coloco para tocar algumas músicas da trilha de Se Beber, Não Case. Começo com Cramps, Fever. Ringo fica animado. Me olha com seus olhos amarelos. Depois, Gene Vicent and His Blue Caps, Wedding Bells. Meu cachorro se senta e aprecia a música enquanto curte o movimento.
Um enorme, branco, peludo e descaradamente opulento cachorro desfila na rua. Um cachorro de madame, quase um poodle gigante. Odeio poodles. Ringo o vê. “Pode latir pra esse”, digo.
A próxima faixa da trilha é In the Air Tonight, do Phil Collins. Como sou um bom dono, pulo essa. Não vou torturar o cachorro, né?
Desencano da trilha do filme e passo para Primal Scream, com a instrumental Time of Assassins. Ringo não se incomoda. Pelo contrário, continua o fim da jornada tranquilo. Esse garoto tem bom gosto.
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A sinestésica música que dá nome ao EP esquenta a alma e o corpo nos ares de inverno como um chocolate quente. A letra pode parecer boba numa primeira impressão, mas é perfeita para rechear os ouvidos do público fugido do frio num pub, de um casal embaixo das cobertas ou de você, sozinho por aí, caminhando com seu mp3.